Um primeiro tempo muito bom e um segundo tempo ruim resumem a atuação do Palmeiras no jogo de ida da semifinal da Copa do Brasil contra o Vasco. A vitória por 1 a 0 dá vantagem ao time de Abel Ferreira, mas deixa o confronto aberto. A análise a seguir mostra o que explica a diferença entre as duas etapas, o que deu certo, o que deu errado e quais lições ficam para o jogo de volta.
Maurício e a profundidade que faltava
Sem Vitor Roque em condições de começar, Abel escolheu Maurício para formar dupla com Flaco López. A opção evitou repetir a escalação com Evangelista, Marlon Freitas, Arias, Andreas e Flaco López, que não funcionou nas vezes em que foi testada. Maurício se movimenta mais e ataca as costas da defesa, justamente o tipo de movimento que o time vinha precisando enquanto Vitor Roque não está apto fisicamente para jogar desde o início.
A saída de quatro que desmontou a pressão do Vasco
O Vasco marcava a partir de um 4-1-4-1, com Sosa entre as linhas, e podia baixar para um 5-4-1 quando se fechava. No primeiro tempo, porém, o time de Pedro Emanuel saiu para pressionar a saída de bola com os quatro meio-campistas e o centroavante, fechando o centro do campo e criando problemas para os três zagueiros do Palmeiras.
A solução foi um recurso pouco visto no Palmeiras nesta temporada: um volante, principalmente Evangelista, baixava entre os zagueiros e formava praticamente uma linha de quatro. Murilo e Barbosa abriam como laterais e empurravam os alas Giay e Piquerez para a altura de pontas. O efeito foi em cascata. Os zagueiros abertos atraíam Colidio e Adson para fora, e os pontas do Vasco já não conseguiam fechar o meio. Os alas avançados prendiam os laterais adversários. Saldivia, Paulo Henrique, Lescano e Sosa passaram a ter dúvida sobre quem pressionar, e o Palmeiras abriu espaço por dentro para acionar Flaco López de costas, Arias ou Maurício, que encontravam quem vinha de frente.
Os alas como ameaça na última linha
Para atacar a profundidade, Abel combinou a mobilidade de Maurício com alas que ameaçavam as costas da última linha. Aos 15 minutos, um cruzamento de Piquerez pela esquerda atravessou a área e chegou a Giay, que finalizou pela direita e perdeu uma chance clara. O gol de Maurício veio do movimento planejado: depois de uma boa jogada de Arias na saída de três, Marlon Freitas recebeu e encontrou o atacante atacando o espaço em profundidade, e Maurício teve qualidade para finalizar.
Além da tática, pesou a postura. O Palmeiras ganhou muitas segundas bolas nos primeiros 45 minutos, manteve o volume para empurrar o Vasco para trás e arriscou com a bola, aproveitando cada vez que a pressão adversária mordia a isca.
Por que o segundo tempo foi diferente
A primeira mudança foi de intensidade. Em vez de voltar mais agressivo para ampliar e encaminhar a vaga, o Palmeiras recuperou menos bolas no meio-campo e mostrou menos senso de urgência, como se quisesse administrar a vantagem.
A segunda foi tática: o que funcionou no primeiro tempo passou a ser explorado pelo Vasco. Com Giay e Piquerez muito avançados, sobrava espaço nas costas dos alas, que precisavam percorrer todo o corredor para defender. Pedro Emanuel colocou Cuiabano no lugar de Lucas Piton, um lateral com mais vigor para atacar esse corredor pela esquerda.
Havia ainda um efeito em cadeia. Quando o Palmeiras pressionava no alto ou atacava um bloco fechado, Evangelista e Marlon Freitas subiam com o time, e o trio de zaga ficava no um contra um. Gustavo Gómez se garantiu contra o centroavante, mas os zagueiros pelos lados sofreram mais. Barbosa teve dificuldade para sair da área e marcar um ponta leve como Adson, praticamente na função de lateral. Murilo, que vai bem nos duelos, era atraído para dentro por Colidio, que virava um segundo atacante. Esses movimentos abriam os corredores para o Vasco nas transições, e Barbosa muitas vezes preferiu recuar a enfrentar o portador, com receio do drible ou de uma bola nas costas.
A melhor chance do Vasco reuniu todos esses elementos: Murilo puxado para dentro, Gómez sem referência depois que o pivô saiu da área, os meio-campistas do Palmeiras à frente e o corredor de Giay livre para Cuiabano, que errou a finalização.
Mais atacantes não significam ataque melhor
Depois da expulsão do zagueiro Saldivia, o jogo virou ataque contra defesa, mas o Palmeiras criou ainda menos com um jogador a mais. Com a bola, o time se organizou em algo próximo de um 3-1-6, com Marlon Freitas à frente da saída e Piquerez como zagueiro, diante de um Vasco fechado em um 5-4 que negava os espaços.
Abel respondeu acumulando meias e atacantes. Com a troca na ala esquerda, o time atacou pior por aquele lado. Ao tirar Giay e abrir Arias na direita, deixou o colombiano isolado. A lição se repete: atacar bem depende de movimentos e padrões, não da quantidade de meias ou atacantes em campo, nem da posição de origem de cada jogador.
O que levar para o jogo de volta
A atuação pode ser vista pelos dois lados: o bom primeiro tempo e a vantagem conquistada, ou o segundo tempo fraco e o placar curto. O fato é que o confronto está aberto, mas a vantagem do Palmeiras é real e não pode ser desperdiçada. A volta não pode repetir a postura da semifinal da Libertadores contra o Fluminense, quando o time apenas administrou o resultado e quase foi eliminado. Será preciso pressionar em alguns momentos, baixar o bloco em outros, acelerar em contra-ataques e manter a posse para tirar o ritmo do Vasco. Se repetir o futebol do primeiro tempo, o Palmeiras é favorito para chegar a mais uma final.
Principais lições
- A escolha de Maurício ao lado de Flaco López trouxe ataque à profundidade, e o gol nasceu exatamente desse movimento.
- Com um volante baixando entre os zagueiros e os alas na altura de pontas, o Palmeiras confundiu a pressão do Vasco e abriu espaço por dentro.
- No segundo tempo, o Palmeiras perdeu intensidade e o Vasco passou a explorar as costas dos alas, com Cuiabano pela esquerda.
- Com os volantes subindo, o trio de zaga ficou no um contra um, e Barbosa e Murilo foram atraídos para fora de posição.
- Empilhar meias e atacantes contra um bloco fechado não melhorou o ataque, que depende de movimentos e padrões.
- Na volta, o Palmeiras precisa jogar e alternar pressão, bloco baixo, contra-ataque e posse, sem apenas administrar a vantagem.
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