Desde a volta da última data FIFA, o Palmeiras não abriu mão dos três zagueiros, e os números da sequência ajudam a explicar por quê: são cinco vitórias em seis jogos, com o time vivo na briga pelo título brasileiro, garantido na final da Libertadores e ainda com a Copa do Brasil pela frente. A formação já tinha sido testada no pós-Copa, e pouca coisa mudou no desenho. O que mudou foi a insistência na ideia, que permitiu aperfeiçoar os mecanismos de jogo e tirar mais das peças que o elenco tem.
Com a bola, a estrutura fica definida desde o início da construção. Os três zagueiros saem jogando com um dos volantes, enquanto o outro pode subir para pesar a última linha do adversário. Os alas têm duas funções: abrir o campo junto à linha lateral e atacar as costas da defesa rival, chegando ao fundo para cruzar ou finalizar. Pelo meio, alguém precisa fazer o mesmo papel no sentido vertical, empurrando a defesa para trás e liberando espaço para os meias receberem em boas condições. Quando ninguém ataca a profundidade e todos esperam a bola no pé, a posse deixa de ser agressiva e vira uma circulação lenta, que facilita a marcação.
Por isso o encaixe de características pesa mais que a soma de talentos. Contra o Bragantino, com Ramón Sosa lá na frente, o time produziu muito mais do que contra o Fluminense, o ponto fora da curva da sequência, quando a escolha foi pelos nomes mais talentosos em detrimento do encaixe coletivo. O ala também ganhou com o sistema: antes, o lateral precisava participar da construção lá atrás e depois chegar ao fundo; agora ele já parte do corredor aberto, pronto para atacar o espaço. É o caso de Giay, que já jogava bem na linha de quatro, mas virou titular absoluto nessa sequência com linha de cinco atrás, com três gols nos últimos quatro jogos, dois contra o Corinthians e um contra o Bragantino.
O ganho principal é de movimentação. No 4-4-2, para chegar à formação com bola, um volante precisava baixar perto dos zagueiros, o outro dar um passo à frente, os laterais subirem para virar alas e os pontas fecharem por dentro. Era muita compensação entre o desenho no papel e o jeito como o time realmente joga. No 3-5-2 ou no 3-4-3, o comportamento com bola é praticamente o mesmo, mas os jogadores já saem posicionados nos espaços que precisam ocupar. Os volantes não precisam buscar a bola no pé dos zagueiros o tempo todo nem atuar como terceiro homem na saída, e ficam mais livres para chegar à frente quando o jogo pede.
Essa lógica vale também sem a bola. Como os jogadores ocupam para atacar praticamente os mesmos espaços que precisam ocupar para defender, a transição defensiva fica mais sólida. Os alas que subiram ainda precisam correr para recompor, mas agora contam com um trio de zaga com coberturas bem definidas, e os volantes, que sobem menos, ajudam mais na recuperação. O time não defende melhor por ter mais gente na última linha, e sim porque os movimentos coletivos ficaram mais suaves do que no 4-4-2, em que o posicionamento com bola era muito diferente do posicionamento sem ela. Nenhum sistema é perfeito, mas este é o que mais se ajusta às ideias da comissão técnica entre os testados na temporada.
O elenco é o outro argumento. Se chegar à final da Copa do Brasil, o Palmeiras terá dez jogos em 40 dias até o fim da temporada, com uma data FIFA no meio, e não há condição física de repetir os mesmos onze em todas as partidas. Um titular cansado rende menos do que um reserva inteiro. Com três zagueiros, o time tira uma vaga do meio para a frente, justamente o setor com menos opções e mais lesões. Contra o Bragantino, por exemplo, só Felipe Anderson sobrava no banco do meio para a frente depois da entrada de Flaco López. Já a zaga, setor em que os jogadores costumam sofrer menos com o desgaste, permite revezamento jogo a jogo: Murilo descansou contra o Bragantino, foi titular contra o Athletico-PR, e a defesa completa voltou para a decisão contra o Fluminense. Com a volta iminente de Vitor Roque, praticamente todas as posições passam a ter reposição, o que facilita poupar jogadores no Brasileirão sem desmontar o time antes das decisões contra o Vasco, na Copa do Brasil, e contra o Estudiantes, na final da Libertadores.
Principais lições
- A formação com três zagueiros sustentou cinco vitórias em seis jogos desde a última data FIFA e virou a base do Palmeiras para a reta final.
- O desenho reduz as compensações: os jogadores já partem dos espaços que ocupam com a bola, o que simplifica o ataque e a transição defensiva.
- Encaixe de características vale mais do que juntar os nomes mais talentosos, como mostraram os jogos contra Bragantino e Fluminense.
- Os alas ganharam protagonismo, e Giay virou titular absoluto com três gols nos últimos quatro jogos.
- Com até dez jogos em 40 dias, o sistema facilita o rodízio, protege o setor do meio para a frente e ganha ainda mais opções com o retorno de Vitor Roque.
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